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Quiromancia, Mujer y otros poemas

por Maria Lúcia Dal Farra, traducción de Marco Campos

Traducción del portugués por Marco Campos
Texto original de Maria Lúcia Dal Farra
Edición por Alfonso Conde
Imagen: «Birth» de Marc Chagall

Quiromancia

En el centro de tu palma nace una llama.
Es el alma de lo que tocaste:
la música de las hojas
la gracia de la porcelana
la seda de los días
la intensidad de una luz que no se apaga .
Una caverna resguardada es tu mano
— baúl
del que tomo lo que tú eres
en esa manía de unirte con el mundo.

Mujer

Vengo de la tierra, de la variación de los nombres
— colores entrelazándose.
La montaña se despierta móvil. Del otro lado del siglo
se avecinan ternuras.
Un cuerpo aletea en el aire: soy yo que me alcanzo —
letrero luminoso de cinta antigua,
fervor de procesión en la adolescencia. Un ford pasa
y tiembla las estrellas. Los postes
tiritan con ellas un morse,
las cosas se arrullan apacibles y el confitero de la esquina
gotea la rudeza de la mano sobre la manzana.
Santos se calientan a la luz de las velas . El fuego votivo
palpita la casa y la mesa está puesta
para la cena.
Desciendo como quien comulga el pan, pero inquieta
no me siento; tan sólo dejo que entren todos en mi luz
y me extiendo sobre tejados, avenidas, gasolineras
— estoy entre los techos y la noche.
La cresta de la veleta corta mi pecho izquierdo
y las copas se apiñan de vino para el brindis
en que me reparto.

Lección de música

La noche que mi padre murió
él y yo recordamos tangos hasta tarde —
sin bandoneón, sin guitarra —
de puro improviso :
como si así entretenidos
despistáramos de su objetivo a eso que nos rondaba
o como uno
(los cumparsitos)
y ya en una lengua extranjera
caváramos un caminito para volver a un país permanente
— allá, por los lados del Barrio
o por los lados del Sur.

En la huelga del 39, cuando Gardel
galvanizaba los gramófonos de mi pequeño arrabal,
papá fue encarcelado.
Tras las rejas
(irreverente)
cantó por horas, honrando la espera de los estudiantes que
(de afuera)
forzaban la vuelta de su líder
— porque (él me dijo)
la música me da vida si la vida falta.

Por eso cantamos tanto aquella noche.
Por eso canto tanto ahora.

De Livro de Auras (1994)

Quimera
(lectura de un diálogo de Federico García Lorca)

Te espero
(aquí)
en este jardín
(una vez más)
viendo la insistencia de la vida por parecer joven
en la inquietud de los pájaros.

Abro una flor en mi boca
para llamarte
— y el niño de piedra en el lago lleno de agua

sonríe.

De Alumbramentos (2011)

Visita a la casa materna

Todo parece igual. La misma casa
las mismas lagartijas arriba en la misma pared
la invasión natural de murizocas por las noches
en que se duerme sin el tul del mosquitero.

La escalera baja al sótano
despejada y sin tráfico —
la puerta siempre abierta.

Veintinueve mil veces oí al cuco sonar
(siempre que estuve aquí)
marcando las horas —
mi vida.

En la azotea
el aura eterna de mi padre
— la luz incesante del oratorio.

Nadie más cubre esta ausencia espesa
esta nada de silencio . Y entretanto todas
aquellas voces, tanta música, ruidos —
cuánto bullicio.

Todo parece lo mismo.

De Terceto para o fim dos tempos (2017)

Quiromancia

No centro da tua palma nasce uma chama.
É a alma do que tocaste:
a música das folhas
a graça da porcelana
a paina dos dias
o agudo da luz que não murcha.
Caverna resguardada é tua mão
— baú
donde retiro o que tu és
nessa mania de te fundires com o mundo.

Mulher

Venho da terra, da variação dos nomes
— cores se entrelaçando.
A montanha se ateia móvel. Do lado de lá do século
pairam ternuras.
Um corpo esvoaça no ar: sou eu que me alcanço —
letreiro luminoso de fita antiga,
fervor de procissão na adolescência. Um forde passa
e treme as estrelas. Os postes
tiritan com elas um morse,
as coisas se acalentam morosas e o quitandeiro da esquina
pinga a rudeza da mão sobre a maçã.
Santos se aquecem nas velas. O fogo votivo
palpita a casa e a mesa está posta
para a ceia.
Desço como quem comunga o pão, mas irrequieta
não sento; deixo apenas que entrem todos na minha luz
e me espalho sobre telhados, avenidas, postos de gasolina
— estou entre os tetos e a noite.
A crista do catavento corta meu peito esquerdo
e as taças se apinham de vinho para o brinde
em que me reparto.

Lição de música

Na noite em que meu pai morreu
ele e eu lembramos tangos até tarde —
sem bandoneón, sem violão
de puro improviso:
como se assim entretidos
distraíssemos de seu fito aquilo que nos rondava
ou como uno
(los cumparsitos)
e já numa língua estrangeira
cavássemos um caminito para volver a um país permanente
— lá para os lados do Barrio
ou para os lados do Sur.

Na greve de 39 quando Gardel
galvanizava os gramofones do meu pequeno arrabalde,
papai foi preso.
Detrás das grades
(irreverente)
ele cantou horas a honrar a espera dos estudantes que
(de fora)
forçavam a volta do seu líder
— porque (ele me disse)
a música me dá vida se a vida falta.

Por isso cantamos tanto naquela noite.
Por isso canto tanto agora.

De Livro de Auras (1994)

Quimera
(leitura de um diálogo de Federico García Lorca)

Espero-te
(aqui)
neste jardim
(mais uma vez)
vendo a insistência da vida em parecer jovem
na inquietação dos pássaros.

Abro uma flor na boca
para te chamar
— e o menino de pedra do lago cheio de água

sorri.

De Alumbramentos (2011)

Visita à casa materna

Tudo parece igual. A mesma casa
as mesmas lagartixas no alto da igual parede
a invasão natural de muriçocas nas noites
em que se dorme sem o tule do mosquiteiro.

A escada desce ao porão
desimpedida e sem tráfego —
a porta sempre espalmada.

Vinte e nove mil vezes ouvi o cuco soar
(sempre que aqui estive)
marcando as horas —
minha vida.

Na cumeeira
a aura eterna do meu pai
— a luz sem cortes do oratório.

Ninguém mais preenche essa ausência espessa
esse nada de silêncio. E no entanto todas
aquelas vozes, tanta música, ruídos —
quanto bulício.

Tudo parece o mesmo.

De Terceto para o fim dos tempos (2017)

Quiromancia

No centro da tua palma nasce uma chama.
É a alma do que tocaste:
a música das folhas
a graça da porcelana
a paina dos dias
o agudo da luz que não murcha.
Caverna resguardada é tua mão
— baú
donde retiro o que tu és
nessa mania de te fundires com o mundo.

Mulher

Venho da terra, da variação dos nomes
— cores se entrelaçando.
A montanha se ateia móvel. Do lado de lá do século
pairam ternuras.
Um corpo esvoaça no ar: sou eu que me alcanço —
letreiro luminoso de fita antiga,
fervor de procissão na adolescência. Um forde passa
e treme as estrelas. Os postes
tiritan com elas um morse,
as coisas se acalentam morosas e o quitandeiro da esquina
pinga a rudeza da mão sobre a maçã.
Santos se aquecem nas velas. O fogo votivo
palpita a casa e a mesa está posta
para a ceia.
Desço como quem comunga o pão, mas irrequieta
não sento; deixo apenas que entrem todos na minha luz
e me espalho sobre telhados, avenidas, postos de gasolina
— estou entre os tetos e a noite.
A crista do catavento corta meu peito esquerdo
e as taças se apinham de vinho para o brinde
em que me reparto.

Lição de música

Na noite em que meu pai morreu
ele e eu lembramos tangos até tarde —
sem bandoneón, sem violão
de puro improviso:
como se assim entretidos
distraíssemos de seu fito aquilo que nos rondava
ou como uno
(los cumparsitos)
e já numa língua estrangeira
cavássemos um caminito para volver a um país permanente
— lá para os lados do Barrio
ou para os lados do Sur.

Na greve de 39 quando Gardel
galvanizava os gramofones do meu pequeno arrabalde,
papai foi preso.
Detrás das grades
(irreverente)
ele cantou horas a honrar a espera dos estudantes que
(de fora)
forçavam a volta do seu líder
— porque (ele me disse)
a música me dá vida se a vida falta.

Por isso cantamos tanto naquela noite.
Por isso canto tanto agora.

De Livro de Auras (1994)

Quimera
(leitura de um diálogo de Federico García Lorca)

Espero-te
(aqui)
neste jardim
(mais uma vez)
vendo a insistência da vida em parecer jovem
na inquietação dos pássaros.

Abro uma flor na boca
para te chamar
— e o menino de pedra do lago cheio de água

sorri.

De Alumbramentos (2011)

Visita à casa materna

Tudo parece igual. A mesma casa
as mesmas lagartixas no alto da igual parede
a invasão natural de muriçocas nas noites
em que se dorme sem o tule do mosquiteiro.

A escada desce ao porão
desimpedida e sem tráfego —
a porta sempre espalmada.

Vinte e nove mil vezes ouvi o cuco soar
(sempre que aqui estive)
marcando as horas —
minha vida.

Na cumeeira
a aura eterna do meu pai
— a luz sem cortes do oratório.

Ninguém mais preenche essa ausência espessa
esse nada de silêncio. E no entanto todas
aquelas vozes, tanta música, ruídos —
quanto bulício.

Tudo parece o mesmo.

De Terceto para o fim dos tempos (2017)

Quiromancia

En el centro de tu palma nace una llama.
Es el alma de lo que tocaste:
la música de las hojas
la gracia de la porcelana
la seda de los días
la intensidad de una luz que no se apaga .
Una caverna resguardada es tu mano
— baúl
del que tomo lo que tú eres
en esa manía de unirte con el mundo.

Mujer

Vengo de la tierra, de la variación de los nombres
— colores entrelazándose.
La montaña se despierta móvil. Del otro lado del siglo
se avecinan ternuras.
Un cuerpo aletea en el aire: soy yo que me alcanzo —
letrero luminoso de cinta antigua,
fervor de procesión en la adolescencia. Un ford pasa
y tiembla las estrellas. Los postes
tiritan con ellas un morse,
las cosas se arrullan apacibles y el confitero de la esquina
gotea la rudeza de la mano sobre la manzana.
Santos se calientan a la luz de las velas . El fuego votivo
palpita la casa y la mesa está puesta
para la cena.
Desciendo como quien comulga el pan, pero inquieta
no me siento; tan sólo dejo que entren todos en mi luz
y me extiendo sobre tejados, avenidas, gasolineras
— estoy entre los techos y la noche.
La cresta de la veleta corta mi pecho izquierdo
y las copas se apiñan de vino para el brindis
en que me reparto.

Lección de música

La noche que mi padre murió
él y yo recordamos tangos hasta tarde —
sin bandoneón, sin guitarra —
de puro improviso :
como si así entretenidos
despistáramos de su objetivo a eso que nos rondaba
o como uno
(los cumparsitos)
y ya en una lengua extranjera
caváramos un caminito para volver a un país permanente
— allá, por los lados del Barrio
o por los lados del Sur.

En la huelga del 39, cuando Gardel
galvanizaba los gramófonos de mi pequeño arrabal,
papá fue encarcelado.
Tras las rejas
(irreverente)
cantó por horas, honrando la espera de los estudiantes que
(de afuera)
forzaban la vuelta de su líder
— porque (él me dijo)
la música me da vida si la vida falta.

Por eso cantamos tanto aquella noche.
Por eso canto tanto ahora.

De Livro de Auras (1994)

Quimera
(lectura de un diálogo de Federico García Lorca)

Te espero
(aquí)
en este jardín
(una vez más)
viendo la insistencia de la vida por parecer joven
en la inquietud de los pájaros.

Abro una flor en mi boca
para llamarte
— y el niño de piedra en el lago lleno de agua

sonríe.

De Alumbramentos (2011)

Visita a la casa materna

Todo parece igual. La misma casa
las mismas lagartijas arriba en la misma pared
la invasión natural de murizocas por las noches
en que se duerme sin el tul del mosquitero.

La escalera baja al sótano
despejada y sin tráfico —
la puerta siempre abierta.

Veintinueve mil veces oí al cuco sonar
(siempre que estuve aquí)
marcando las horas —
mi vida.

En la azotea
el aura eterna de mi padre
— la luz incesante del oratorio.

Nadie más cubre esta ausencia espesa
esta nada de silencio . Y entretanto todas
aquellas voces, tanta música, ruidos —
cuánto bullicio.

Todo parece lo mismo.

De Terceto para o fim dos tempos (2017)

Marco Campos (Lima, 1999). Graduando de la carrera de Lingüística y Literatura en la Universidad Nacional Federico Villarreal, es director de la revista de traducción y literatura brasileña Lengua Imperfecta. Como editor, ha trabajado con la Fundación BBVA y la editorial Pesopluma; colaboró en la investigación por el centenario de la Semana de Arte Moderno (2022) con la embajada de Brasil; como traductor ha publicado a autores como Guilhermino César e Hilda Hilst. Incursionó en la traducción de videojuegos con el galardonado «He fucked the girl out of me», de Taylor McCue. Actualmente traduce a los poetas Mário de Andrade, Maria Lúcia dal Farra y Ferreira Gullar, mientras prepara su primer libro.